Pra dois

O problema era como transformar um quarto de um trintão que não mudava nem a cama de lugar há pelo menos 15 anos, em algo habitável por um casal. A primeira providência: desentranhar a estante laranja-bombeiro grudada na parede pra suportar o peso de inúmeros troféus da juventude, que acabou se tornando depósito das câmeras usadas ao longo do trajeto que o levou de peeping tom a voyeur profissional (leia-se fotógrafo).
Chave de fenda e algumas viagens pra garagem resolveram o assunto. A marca descolorida na parede e os buracos dos parafusos ficaram como lembrança das grandes façanhas, agora armazenadas em sacos plásticos. O ego masculino permitiu que os prêmios fossem retirados de vista, mas a nostalgia da juventude ameaçou emperrar a segunda e mais importante fase da operação Limpeza Já.
Desbravar regiões inóspitas, ampliar o território e colonizar novas regiões. Resumo da etapa Bandeirantes: abrir espaço no armário para o elegante vestuário feminino que acompanha a mocinha da história. Pois foi justo aí que a nossa Borba Gata sofreu sua derrota. O ex-campeão de tênis de mesa (Nome metido a besta para ping-pong: versão dela. Esporte olímpico de elite: versão dele) bateu o pé. De maneira alguma se desfaria do magnífico conjunto usado para conquistar tantas vitórias!
O fato de: a) ser pelo menos dois números menor que o atual tamanho do trintão, b) primar pela mistura arrepiante de cores e, c) ser condizente com o pior dos 80; não o demoveu. Nem o argumento de que seria extremamente improvável o uso num futuro imediato ou longínquo de tal indumentária composta de camisa gola mole e short curtinho numa mistura roxa-amarela-vermelha-azul (o horror, o horror)…
Mas um bom estrategista sabe quando recuar. Ciente de que em uma semana o assunto estaria esquecido e o horror poderia ser abduzido por forças alienígenas desconhecidas, a mocinha foi magnânima. Até deixou uma gaveta para o trintão e permitiu que suas humildes roupinhas dividissem o espaço sagrado das mais belas criações de estilistas para C&A. Só faltava agora resolver um probleminha básico: onde dormir.
Depois de duas noites relembrando os bons tempos de namoro (leia-se: tirar o colchão de solteiro da cama, empurrar a dita cuja pra cima do armário e tentar armar um aleijão de futon, composto de colchonete fininho e colchão pelo menos 10 centímetros mais alto) era hora de deixar de malabarismo e arrumar um verdadeiro leito para a dupla.
Menos mal que o trintão conservador tinha duas tias solteiras e generosas morando logo em cima, e melhor: com uma cama de casal desenhada pelo tio gênio-da-arquitetura nos anos 70, com mesinhas de cabeceira a jogo, revival total e absolutamente modernoso! Relegada ao quarto de hóspedes, ninguém melhor para herdá-la que o perfeito sobrinho querido e a afortunada mocinha, caída em graça das titias pelo simples fato de ser A Escolhida (tom tenebroso de filme de terror).
Convocada a equipe de mudança (trintão, mocinha, mãe moderninha do trintão, irmã sarcástica – também do trintão, e diarista paciente), foi trabalho duro toda manhã. Balanço da bolsa: sobe solteiro, desce casal. O mercado bem sabe que o risco desse tipo de investimento é bem maior, mas o ganho, neste caso, foi enorme. E ficou bem no meio do quarto…

Vício Cultural

Vika Guerreiro

Há quem fale que o vício é algo pessoal, um defeito grave, um costume nocivo. Em Salvador ele é tudo isto e algo mais. É um fenômeno coletivo quando se trata do ingresso no cenário alternativo e underground. A cena é fraca e além de todas as dificuldades já conhecidas, como o baixo poder aquisitivo local, observamos mais um agravante: os “não pagantes” ou, se preferir atenuar, os “convidados da lista ”, que são contribuintes ferrenhos para a desqualificação dos eventos musicais.

O público alternativo se acostumou a não pagar nos eventos locais. Como em uma boa aldeia, todos se conhecem, nem que seja de “vista”, e isto se constitui num passaporte para shows. Ter amigos músicos, artistas atuantes que “bombam”, realmente é maravilhoso, principalmente quando acompanhamos esta trajetória. Mas daí a essa relação se tornar um passe livre obrigatório para todas as apresentações é demais… Talvez o bacana fosse pensar que o entretenimento de quem vai aos shows é o trabalho do amigo!

O curioso é que isso não acontece com atrações de fora. O empenho é outro, mesmo com o valor muito mais alto. Essa conjuntura ajuda a degradar de forma escusa e silenciosa a prata da casa. O engano está em querer investir o dinheiro da entrada em bebidas. Quem sai ganhado é somente o dono do espaço, que, na maioria dos casos, é também o dono do bar. Na verdade, quem mais sofre é o próprio público que cada vez mais se depara com eventos sem infra-estrutura, o que reflete na qualidade musical, sonora e dos espaços, pois esses eventos necessitam, sim, (acreditem!) de produção, de aluguel de equipamentos, de profissionais para a montagem, de transporte etc,etc.

Enfim, custos que determinam a qualidade de cada espetáculo e que são primordiais para realização de eventos “de responsa”. Geralmente o valor das entradas (quase irrisório) é revertido no custeio das etapas de pré-produção, além do cachê dos músicos. Esse comportamento “sugatório” acontece porque o público não tem grana ou não acredita no nosso cenário musical? Prestígio é bom, prestigiar é melhor ainda.

Vika Guerreiro é cantora e relações-públicas, além de sofrer com pedidos de ingressos “na moral”

O caso do jornalista da Globo

O que fazer com um jornalista suspeito de envolvimento com organizações criminosas? Quando um dos seus repórteres foi apontado pelo Ministério Público como possível integrante de um esquema de corrupção envolvendo a máfia de caça-níqueis, as Organizações Globo agiram rapidamente. Antes que a notícia fosse explorada por outros veículos de comunicação, as empresas jornalísticas do grupo informaram aos seus leitores o que estava acontecendo e publicizaram o nome do jornalista, deixando claro que não havia nada provado contra ele e que, por isso, a TV Globo aceitou o pedido de licença feito pelo seu funcionário, a fim de que ele pudesse fazer a sua defesa e provar a sua inocência, como sustentava. A informação foi ao ar na internet pelo portal G1, na sexta, dia 15 de dezembro.
Passado o final de semana, com a apresentação de fitas gravadas contendo conversas do jornalista com pessoas da máfia, e a acusação – feita pelo MP – de que o repórter estaria recebendo propina dos donos de caça-níqueis a fim de produzir matérias que beneficiassem o grupo e prejudicassem seus rivais, o Jornal Nacional publicou o material disponível e informou que entre os acusados estava um dos jornalistas da emissora. Após a exibição da reportagem, o âncora William Bonner disse que caberia à Justiça avaliar se o jornalista era culpado ou não, mas que ele havia quebrado os códigos de ética da emissora e que, por isso, foi demitido. Na mesma noite, o G1 publicava novos elementos da matéria, informando que o jornalista negava as acusações.
Independente do que a Justiça decida a respeito da conduta do jornalista, a situação chegou a um ponto em que a Globo quis deixar bem claro que não compactuava com o crime. De fora, é difícil saber se quando a emissora resolveu divulgar o nome do profissional, na sexta-feira, tinha já informações que não deixavam dúvidas sobre o seu envolvimento. Se o nome do jornalista foi publicado enquanto ele ainda contava com algum apoio formal da emissora, ao menos para se defender, a demissão veio quando as gravacões tornaram o comportamento do jornalista insustentável aos olhos da emissora. O texto de Bonner deixou claro que a Globo não arriscaria a sua credibilidade. Para a empresa, mais importante do que a atitude supostamente criminosa de um funcionário foi a atitude que a organização tomaria em relação a crime supostamente cometido por alguém da casa.

O jornalista que copiava

Trabalho no Maior Jornal do Norte e Nordeste do Brasil (MJNNB) há quase cinco anos e já escrevi sobre economia, política, empregos, automóveis, cultura, internacional, geral, Brasil, enfim, quase todas as editorias. Minhas matérias sempre foram muito elogiadas por colegas e leitores, mas eu nunca fui promovido. Continuo ganhando como um repórter em início de carreira. Essa semana, me ocorreu que não vale a pena me esforçar para fazer bons textos, já que aparentemente eu posso escrever qualquer absurdo e continuar empregado no Maior Jornal do Norte e Nordeste.
Esse pensamento me ocorreu depois que o MJNNB publicou, no sábado, dia 18 de novembro, uma errata, reconhecendo que metade de uma matéria escrita por um repórter especial (que ganha quase o dobro do meu salário), sobre o Rio São Francisco, havia sido copiada de um informativo publicado pela Marinha do Brasil no ano anterior. O repórter viajou para o interior, com direito a caixinha “e as porra”, e voltou com o texto pronto de outra pessoa e o publicou, sem mudar uma vírgula. A farsa foi descoberta porque o oficial da Marinha, que escreveu o texto quando ainda servia no Rio de Janeiro, agora trabalha no setor de comunicação social do II Distrito Naval e tem por costume ler diariamente os jornais.
O oficial foi até a redação com o texto original em mãos e o mostrou aos editores do MJNNB. A partir daí, foi feita uma busca na internet e se comprovou que o repórter copia há anos textos de assessorias de imprensa, bulas de remédio e receitas de bolo. O jornal publicava os textos como se fossem de seu funcionário e, não raro, as matérias viravam manchete. Dessa vez, ao invés de navegar na internet para pescar matérias prontas, o repórter mergulhou de cabeça no universo dos marinheiros.
Com todas as provas reunidas pelo MJNNB, pensei comigo: agora o jornal vai tomar uma providência! Ainda mais depois de ter pago R$ 600 mil por ter publicado em 1997, sem a autorização do autor, uma foto totalmente descartável de um artista plástico, além de ser obrigado a republicar a foto na capa, com os devidos créditos, cumprindo decisão judicial.
Ledo engano, o repórter especial do MJNNB recebeu da direção do jornal uma segunda chance, depois de ter chorado “copiosamente” (não resisti ao trocadilho) e dito que isso não se repetiria nunca mais. Eram, digamos, águas passadas.
Como não vejo a possibilidade de receber uma promoção, estou pensando em sugerir ao MJNNB a criação de uma editoria CTRL C/CTRL V, para os momentos de aperto. Eu mesmo estou me escalando para o serviço. a nova editoriaI poderia ser de grande valia para uma empresa que não gosta de pagar hora extra. Se não dá para entrevistar uma fonte antes do final do turno de trabalho, recorre-se a uma matéria clonada. O jornal poderia contratar, inclusive, o ex-jornalista do New York Times, Jason Blair, para copiar textos em inglês. Será que vai colar?

Brasileiro, ilegal

Nem dá para acreditar. Estou acomodado em uma mesa enorme, com um computador ultramoderno e tenho o dia inteiro para surfar pela internet, ouvir música e contar a meus amigos por e-mail a sorte que eu tive. Há quatro meses, eu ganho a vida nos Estados Unidos procurando sites interessantes em português e escrevendo pequenas sinopses sobre eles. Esses resumos servem para ajudar os internautas do Brasil e de outros países lusófonos a decidir se entram ou não em uma determinada página virtual. Ganho US$ 2.500 dólares por mês para fazer isso e ainda trabalho com gente de diferentes partes do planeta. Japoneses, coreanos, franceses, estadunidenses e muitos latino-americanos, que fazem o mesmo trabalho em diferentes idiomas.
Toda sexta-feira tem happy-hour na copa, com pizza e cerveja à vontade. Às vezes, chega um aviso interno de que tem sorvete ou bagles, um pão delicioso que ele comem por aqui, e sai todo mundo correndo para lá. É uma festa. E tem Kristin, uma gata inacreditável do Maine, que sempre passa sorrindo em frente à minha mesa. Estou caidinho por ela. Jamais conseguiria um trabalho assim no Brasil, tenho certeza. Quem me indicou para o cargo foi uma amiga argentina que trabalha para o time que escreve em espanhol. Ela ficou sabendo que abririam uma vaga para português do Brasil e me deu o toque. Eu só tinha duas semanas nos Estados Unidos e, com meu inglês precário não poderia trabalhar nem como garçom. Essa foi a segunda possibilidade de emprego que apareceu. A primeira veio logo na semana em que cheguei, um empresário paulista que me conheceu numa festa me ofereceu uma vaga na construçãõ civil. O trabalho era ainda mais bem remunerado, mas eu não aceitei simplesmente porque meu físico não recomenda esse tipo de atividade. Logo depois veio o paraíso em forma de ocupação profissional.
Mas nem tudo são flores. Para conseguir esse emprego tive que comprar um greencard falso por US$ 100 nas mãos dos mexicanos. Isso já é um drama em si para um cara que no Brasil sempre foi certinho e se recusa a sair mais cedo do trabalho e pedir que um colega bata o seu cartão de ponto. Os meus princípios até que podiam ser postos em segundo plano, se junto não viesse a paranóia. Vivo diariamente com a sensação de que vou ser descoberto e preso. Meu medo não é propriamente ser preso, mas acabar na base de Guantánamo, acusado de conspirar contra os Estados Unidos. Exagero, não? Outro dia fui pescar com uns amigos em uma cidade vizinha e depois que entrei no carro soube que um deles era um policial de férias na cidade. Entrei em pânico. Na semana passada, quase tive um infarto no trabalho, quando um rapaz passou pela minha mesa e largou um papel em que se lia “Migration 2006″. Imediatamente olhei ao redor para ver se estava sendo vigiado. Por três segundos, pensei em sair correndo ou avaliar como me defenderia legalmente. Até que olhei para o papel atentamente e percebi que se tratava de uma mudança no sistema operacional do Microsoft Windows. Ufa.
Essa tensão permanente tem ofuscado as coisas maravilhosas que me aconteceram aqui. A maioria das pessoas com quem convivo não sabe da minha história, embora seja uma prática comum. É que quem sabe da falsificação e não denuncia ao governo também pode ser processado. Quem sabe da situação tenta me tranquilizar, dizendo que muita gente está na mesma. Uma amiga tem me aconselhado a me casar com alguém e ficar por aqui. Mas não tenho certeza se quero morar para sempre nos Estados Unidos. Pensei em ficar por um tempo até juntar dinheiro e voltar para o Brasil. Mas com essa pressão na cabeça, estou tentado a voltar dentro de dois meses, antes que vença meu visto de turista.

Alberto e sua linda visitante

Minha namorada está chegando de viagem dentro de duas semanas. Na verdade, não é um namoro fixo. Nos conhecemos há mais ou menos um ano, aqui mesmo na minha cidade quando ela estava em férias. Nosso encontro foi muito bom e, como não temos compromisso com outras pessoas, ela resolveu voltar agora para curtir um pouco mais. Eu estou levando as coisas assim, mas acho que talvez ela esteja fazendo planos para uma relação séria. Tenho essa impressão sempre que nos falamos por telefone. Ela até falou de mim para os seus amigos em Belo Horizonte. Ela é bonita, inteligente, divertida e razoavelmente independente, mas ainda assim tem aquelas coisas de que o homem é que paga a conta do restaurante, mesmo que antes de voltar para casa a gente pare em um caixa eletrônico e ela me reembolse. Acho que poderíamos até pensar em morar juntos, no futuro, mas não transamos mais do que umas cinco vezes e acho que é precipitado falar disso agora. Não quero cortar seu entusiasmo, pois realmente gosto dela. Mas também não quero fazer coisas que a incentivem a deixar o trabalho e se mudar para Salvador. Até porque aqui não seria fácil arrumar um emprego para a sua qualificação profissional. Estou numa de “devagar com o andor que o santo é de barro”.
O problema, o grande problema, é que justamente agora que ela está por chegar, uma amiga me pediu que eu abrigasse, por uns dias, uma conhecida sua que veio da França, passar um tempo em Salvador. A hospedagem que ela pensava estar garantida não deu certo e a menina ficou no meio da rua, com toda a sua bagagem, assim que desembarcou do aeroporto. Quando eu vi a criatura topei recebê-la em casa imediatamente, o primeiro pensamento foi levá-la para a cama. Mas botei cara de quem está fazendo uma grande concessão e carreguei uma de suas sacolas. No máximo por dez dias, disse, ressaltando que eu receberia uma visita logo depois.
O velho lobo mau tinha em sua toca um chapeuzinho rouge de uns 19, 20 anos, do tipo jovem parisiense entediada. Se a família dela recebesse uma foto minha, olhando para a garota, pediria imediatamente que a Interpol a resgatasse do meu apartamento. Mas sosseguei o facho. Percebi que a menina estava desconfortável, ou fingia, pois achou ótimo ter encontrado abrigo no centro, perto da praia. Em pouco tempo, ela se tornou a alegria da rua. O hábito de usar calças e shorts transparentes, mostrando a calcinha em relevo, causa furor entre os caras, especialmente quando vamos ao bilhar e ela se debruça sobre a mesa para uma tacada. Eu faço cara feia, do tipo “que é que tão olhando?” e volto para o jogo. Ela provoca, esperando uma cena de ciúmes.
Para agradar ao seu anfitrião, a francesinha começou a fazer comida para quando eu retornasse do trabalho e a limpar a casa. Também gasta horas escutando meus CDs, na sala onde improvisou seu quarto. Quando o telefone toca, ela abaixa o volume e se afasta. De vez em quando, volta e se senta no sofá, ao meu lado. Está sempre sorridente e gosta de demonstrar gratidão me abraçando. Ontem, depois que minha “namorada” mineira desligou o telefone, ela encostou a cabeça no meu ombro e eu a acomodei deitada, com a cabeça no meu colo, sem que ela esboçasse uma reação. Em pouco tempo, minha mão estava percorrendo sua barriguinha e deslizando sobre os seios, que outro dia vi de relance, quando ela se abaixou para recolher uma capa de CD. Aproximei-me do seu rosto para um beijo e, quando nossos lábios se tocaram, ela se levantou correndo e começou a chorar. Não sei se está fazendo gênero ou confusa, mas sinto que ela estå doida para transar. Mas só vai fazer isso se eu disser que estou gostando dela. Eu faria tudo para levá-la para o meu quarto, até dizer que estou apaixonado, o que não é verdade. O problema é que em seis dias chega a minha visita.